Desceu as escadas com pressa.
Queria sair para rua, não aguentava mais ficar presa dentro do apartamento.
Tinha passado tempo demais lá.
Quanto mesmo?
Perdeu a noção do tempo que ficou chorando, olhos vidrados no telefone à espera de um sinal, um alô.
Nada.
No início pensou que se tratava de um problema no aparelho, depois de um tragédia. Teria acontecido algo com ele? Só podia ser isso...
Naquela noite, depois dela ter se entregue, tudo estava perfeito. Ele, carinhoso, cobriu-a de beijos e de palavras doces que soavam como promessas de novos encontros.
Passaram-se as horas, os dias, e nada.
Quando ela ligava caia na caixa postal ou não era atendida.
Não entendia o que poderia ter acontecido.
Esperou, ligou para os amigos, novamente nada. Ele tinha desaparecido da face da Terra.
Ou quase.
Descobriu por um conhecido que ele havia ido trabalhar. Pensou em procurá-lo lá, mas o pouco de orgulho que lhe sobrou depois de quarenta e sete chamadas não atendidas e duas dúzias de mensagens não a deixou.
Ele era um canalha.
Custou a acreditar (e ainda, por vezes procurou alguma justificativa para não pensar assim).
Caiu na lábia, na armadilha, de um predador que sugou sua paixão, seu sono e sua vontade de comer por uma simples noite de prazer.
Por que ele não pediu? Teria concedido mesmo que fosse claro que seria assim.
Estava apaixonada, estava entregue, por que precisaria ainda ficar humilhada?
Ele, nas semanas que antecederam o episódio, lhe pareceu um perfeito cavalheiro, um príncipe de contos de fadas. Seus olhos lhe passavam tanta segurança, diria, amor até.
Sabia que combinavam, que tinham tudo para namorar e serem felizes.
Por que, meu Deus, por quê?
Agora já via a porta, apressou o passo, não reparando estar descalça. Não se viu no espelho, não colocou maquiagem. Estava com a mesma roupa de uma semana atrás.
Precisava de luz.
Correu.
Passou pela portaria sem cumprimentar ninguém.
Sol no rosto, visão manchada, avançou em direção a rua movimentada sem perceber os carros.
Morreu sem saber de nada.
(2008)
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