sexta-feira, 5 de junho de 2009

D

Chego em casa com teu cheiro.

Desejando ele permanentemente em mim.

De olhos fechados te desenho:

Rosto, corpo, pele.

Respiro.

Te escuto.

O ar que sai da tua boca, sai como música.

Minhas mãos passeiam mais uma vez por ti.

Abro meus olhos, vejo os teus.

Bela.

Muito mais do que isso, na verdade.

Fogueira que me aquece, Deusa.

Meu desejo tem dona.

Meu desejo mais uma vez vem à tona,

Basta lembrar do teu corpo a tremer.

Sensações boas que me fazem ousar

Te dizendo bobagens que quero realizar.

Cama, casa, livros.

Filmes.

Um em especial: o nosso.

Romance sem pitadas de drama.

Só romance.

Dia após dia.

Noites e noites.

Lado a lado.

Demore quanto precisar,

Eu sei esperar...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

No café

Ela estava entediada naquele café.
Folhava uma revista sem ler, observava uma ou outra figura sem prestar muita atenção.
Sentia o momento de sua vida como que em uma encruzilhada. Não era mais uma menina, nem ainda deixara de ser mulher. A beleza ainda estava em si, ainda despertava olhares masculinos e, vez por outra, femininos também.
Apaixonara-se uma vez só. Fora intenso. Três anos. Pensou em casar, morar junto, filhos.
Não deu certo.
Pensou, depois disso, só no trabalho.
E o trabalho lhe levou à encruzilhada. Recebera uma promoção. Um novo país, uma nova língua, um salário considerável.
Poderia ir.
Buscava motivos para ficar.
Tinha para si que talvez a felicidade fosse o tédio que sentia agora.
Por que não?
Seu coração quando adolescente batia forte todo mês por alguém diferente.
Sempre apaixonada.
Passou.
Hoje as batidas eram ritmadas como os segundos de um relógio.
E embora ainda reconhecesse beleza no sexo oposto, tornara-se exigente demais e, salvo um encontro ou outro, absteve-se de companhias.
Tinha um gato, que vez por outra fazia as vezes de psicólogo. Este lhe dava atenção e carinho sem concessão.
Buscou saber as horas.
Ainda cedo.
Pensou em sair daquele lugar.
Pensou em outro café.
Optou pelo segundo e enquanto trocava de revista, notou o rapaz solitário à sua esquerda, imerso na leitura de um livro: Byron.
Cabelos negros, bele branca, óculos.
De onde estava, percebia um corpo cuidado por causa das roupas justas que ele usava.
Seus olhos se cruzaram em um sorriso mútuo.
Ela corou, ele notou e a convidou para partilhar a mesa.
Ela aceitou.
Nomes. Profissões. Nada de idades.
Byron?
Ele explicou e ela gostou: professor de literatura.
Ela: fã de literatura. Ele gostou também.
Falaram disso por vários cafés. Riram disso também.
Falaram de tudo, inclusive sobre o tédio.
Principalmente do que não sentiram enquanto estavam juntos.
Chegaram a conclusão de que ele não era sinônimo de felicidade e brindaram a isso.
Com café.
Trocaram telefones antes dele beijar seu rosto e se despedir. Tinha aula.
Ela, sentindo o coração despertar de um sono profundo, tinha agora um motivo para ficar.
A encruzilhada ficava para trás.


(2009)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Tempestade

Não queria ouvir o que seu coração insistia em dizer.

Disfarçava cada vez que o nome dele insistia em soar entre seus lábios.

Não podia ser verdade, não deveria estar apaixonada.

Não agora, não por ele.

Amigos desde muito tempo, partilhavam da sociedade de um pequeno e próspero negócio, uma cafeteria.

Tinham desde sempre esse sonho, de um lugar aconchegante, com boa música, bons livros e revistas, com atendimento personalizado e, é claro, com um bom café.

Os clientes eram fieis e, vez por outra, vinham acompanhados de outras pessoas que, ao encantarem-se com o lugar, viravam clientes também, ou, como ele gostava de repetir em voz alta, seus mais novos amigos.

Dividiam a administração do local em turnos. Ela pela manhã, uma vez que gostava de acordar cedo, antes do por-do-sol; ele ficava com as tardes, gostava de dormir um pouco mais. As noites eram o momento em que ambos dividiam o local.

Numa noite dessas, depois que todos foram embora e os dois preparavam os mantimentos para o dia seguinte é que ela se deu por conta de como seu amigo era atraente. Não havia reparado antes no brilho dos seus olhos, nem no seu sorriso. Ousou ir mais além e baixou seus olhos para o corpo dele. Em forma, bronzeado. Vestia-se bem, nada muito requintado, mas era vaidoso e cuidava de sua aparência.

Ele levantou os olhos da lista que estava fazendo e divertiu-se com a expressão que ela fazia, mordendo de leve seu lábio inferior. Ele riu. Ela, assustada, desconversou. Ele continuou rindo e perguntou:

- Que foi?

- Foi nada – respondeu ela, mudando de lugar e dando as costas para ele.

- Você estava me olhando?

- Eu, imagina, estava distante, pensando nem sei em quê.

Ele acreditou e voltou a sua tarefa, vez por outra perguntando se esse ou aquele produto servia. Ela respondia com murmúrios, tentando entender aquele sentimento a quem fora apresentada minutos atrás.

Ela estava sozinha há um tempo, seus namoros anteriores dificilmente tinham tido tempo de comemorar um mês. Era exigente, não se permitia ir para a cama só para satisfazer um impulso. Em tempos modernos, poucos homens tinham a paciência de cortejá-la e de deixar as coisas fluírem naturalmente. Queriam-na já. Vez por outra até mesmo ele fazia piadas com a solidão voluntária dela, que era extremamente bonita e inteligente.

- Você nunca vai casar! Não sobrou um homem com coragem de lhe convidar para sair. – Disse ele.

- Mais um motivo para ficar sozinha, detesto covardes – respondeu.

A verdade é que não entendia o que estava sentindo. Queria poder observá-lo mais um pouco e encontrar algum defeito que a fizesse esquecer aquilo, mas não conseguia.

Estavam prestes a sair quando a chuva forte chegou.

A eletricidade foi cortada de imediato.

O telefone veio a seguir.

Celulares também saíram de área.

Olharam pela vidraça, ninguém na rua.

Haviam se distraído com as tarefas e perderam a hora.

Quase vinte e três.

Ele acendeu velas para acalmá-la, sabia que não gostava do escuro. Ela agradeceu.

O vento forte veio a seguir.

Trovões.

Relâmpagos.

Ele sugeriu um café, ela abriu uma garrafa de vinho tinto, precisava de algo mais forte.

Quase não se escutavam, tamanha era a força da tempestade lá fora. Checaram as janelas e aproximaram-se.

Aquela luz o deixava ainda mais bonito.

Ele percebeu que havia algo errado com ela, mas achou que fosse por causa do tempo lá fora. Abraçou-a.

Ela aceitou. Aconchegando-se no seu peito. Sentiu seu cheiro, agradável. Passou seu braços por volta do pescoço dele e tocou seus cabelos.

Ele não a afastou.

Ela deslizou os lábios através do rosto dele até chegar a sua boca.

Beijaram-se.

Intensamente.

As roupas foram sendo tiradas como se suas vidas dependessem disso. Fizeram amor no chão da cafeteria enquanto a tempestade diminuía, como se tivesse existido somente para uni-los.

Voltou a eletricidade tão logo seus corpos exaustos e suados caíram de lado.

Ela procurou rapidamente suas roupas, tomada de uma vergonha imensa.

- Espera – disse ele.

- Não fala nada, por favor – ela respondeu, com os olhos cheios de lágrimas.

O telefone voltou a seguir, tocando junto com as mensagens do celular dele.

Ele atendeu:

- Oi? Tudo bem sim, perdemos a hora... Não vou demorar. Ok... Diz pras crianças que eu levo sim. Beijo.

Era a esposa dele, preocupada.

- Escuta... – ele tentou dizer algo, mas foi brutalmente interrompido por ela.

- Não aconteceu nada, foi estupidez.

- Mas...

- Por favor, não dificulta as coisas para mim... esquece. – Ela saiu rapidamente pela porta, batendo-a atrás de si.

Nunca mais voltaria aquele café, nunca mais veria seu amigo, desapareceria da cidade sem deixar vestígios ainda naquela madrugada.

Não era justo o que fizera com a sua irmã, casada e feliz há dez anos com aquele homem.

Ele, vez por outra, ainda se pega lamentando o que aconteceu entre os dois.

Perdeu sua melhor amiga.

E nunca mais foi feliz ao lado de sua esposa.



(2009)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Pela última vez

O três de espadas não era uma boa carta.

Sabia disso antes mesmo da mulher de grandes olhos e cabelos grisalhos lhe dizer qualquer coisa.

Ela balançou a cabeça, olhou-o com piedade e disse: “desista”.

Não gostava de desistir de nada, detestava o sentimento de frustração que vinha com o abandono de algo a que havia se dedicado.

Ficou olhando para a senhora, na espera que ela lhe dissesse algo além do que já ouvira. Nada mais disse. Juntou todas as cartas e guardou-as enroladas em um pano vermelho gasto.

Ele entendeu o recado e partiu, deixando sobre a mesa o dinheiro combinado pela consulta.

Poderia ser tudo bobagem, também poderia ser que não.

Ele tinha uma tendência a acreditar no misticismo, queria que agora fosse diferente...

Como todo romance, o seu com aquela garota começou recheado de alegria e excitação. Faziam planos desde sempre e tinham convicção de que “esse seria pra valer”. Diziam estar cansados de romances casuais e percebiam um no outro tudo aquilo que buscavam há tempos nos relacionamentos anteriores.

Pelo menos ele acreditava que sim.

Depois de alguns meses vendo somente um ao outro e desaprovando qualquer programa que não envolvesse a presença dos dois, ela começou a se mostrar estranha.

A princípio ele não levou tão a sério, achava que esse era o curso natural das coisas, afinal, também ele, mais cedo ou mais tarde, precisaria de um momento só seu.

Mas as coisas não pararam aí.

Ela começou a não atender os seus telefonemas, nem retornar suas mensagens apaixonadas. Quando dormiam juntos já não faziam amor com a mesma frequência. Por outras vezes o faziam de maneira burocrática, sem a paixão de antes.

Tentou conversar com ela.

Uma, duas, três vezes.

Ela sempre desconversava. Alegava problemas no trabalho, cansaço, ou ainda dizia que era coisa da cabeça dele.

Ele começou a desconfiar que seu lugar agora era de outro.

Sofria por vezes em silêncio, chorando sozinho durante a madrugada.

Só foi ao encontro da cartomante depois de vê-la em um café de mãos dadas com outro.

Embora visse naquela cena a confirmação de que havia chegado o fim de seu relacionamento, tentou em vão se agarrar a qualquer tipo de esperança.

Não obteve.

Agora caminhava pela chuva em direção a casa dela.

Provavelmente não conseguiria dizer nenhuma das palavras que ensaiava durante o percurso, mas precisava olhá-la nos olhos e dizer “eu sei”.

 Pronto, era aqui.

Campainha.

Barulho de chave.

Ela abriu e seus olhares se encontraram.

Pela última vez...



(2009)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Agora

Em silêncio ela enxuga as lágrimas que insistem em rolar.

Tentava não pensar mais nele, nas suas tão incompreensíveis atitudes.

Não podia.

O amava.

Dia a dia, cada vez mais.

E era correspondida, na maioria das vezes.

Não lhe faltava carinho, atenção, paixão.

Mas não era única, sabia.

A princípio foi uma pequena desconfiança, que cresceu até virar certeza.

Ele não negou.

Mas a amava, ela sabia.

Então por que outra meu Deus?

O que lhe faltava?

Pensou até em dividi-lo, tamanha era a vontade de tê-lo por perto.

Mas tinha orgulho, ainda bem.

Ela era especial, sabia.

Apenas amou o homem errado.

O tempo irá curá-la, vai secar suas lágrimas e vai erguê-la outra vez.

Nem todos os homens são iguais, há de ser verdade.

Ou não...



(2009)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Expectativa

Queria sair na chuva porque não aguentava mais se sentir trancada naquele apartamento.
Tudo lembrava ele.
A geografia do local não fora criada por ela. A disposição dos móveis, a ordem dos cds, a posição da tv... nada era dela.
Teria se anulado tanto assim?
Pela primeira vez pensou nisso.
O quanto de sua vida fora vivida para si?
O quanto daquilo tudo que estava dentro de sua casa lhe dizia algo?
Ficou sem ar ao pensar nisso tudo.
Seis anos.
Seis longos anos dedicados a uma pessoa de corpo e alma.
Para quê?
Sentiu-se presa em uma camisa de força.
Sentiu-se nada.
Como reconstruir sua vida sem ele se, sem ele, não havia vida sua?
Pensou em ligar para um amigo, mas até eles não eram seus.
Chorou.
Mais uma vez.
Outra vez essa semana.
Não lembrava mais da visão do seu rosto sem os olhos inchados...
(campainha)
Ele?
Correu para a porta.
Parou.
Estava horrível, precisava se arrumar.
Não queria correr o risco de estragar o momento de um possível retorno.
Não ficaria bonita nem mesmo depois de duas horas em um salão de beleza, mas não queria parecer um monstro.
Pausa rápida para uns retoques.
Cabelo ao menos.
(campainha)
"Ele está impaciente", pensou.
"Um minuto", disse ela.
Gelo abaixo dos olhos.
Batom.
(campainha)
"Rápido", pensou ela.
Ele não esperaria tanto, sempre foi um homem nervoso.
O último olhar para o espelho.
Ok, até que não estava tão mal assim.
Respirou fundo, girou a chave e abriu a porta com um sorriso.
- Bom dia! - disse o moço desconhecido - A senhora já tem plano de saúde?


(2008)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Des (ilusão)

Realidade.
Verdade que é mentira.
Que é um brilho de um barco
Que ruma de encontro ao sol
Que some...
Que escuta sonhos e frases
Que nada dizem,
Que não importam...
São caminhos que traçamos
Em pequenos momentos de glória,
Que comemoramos...
Talvez meu tempo tenha acabado,
Ou talvez esteja por começar,
Não sei...
Pois não são tantos os que vivem de lembranças?
Vou viver de lembranças,
Sufocando meu choro no teu corpo imaginário.
Vou gritar às estrelas o teu nome
E vou sorrir...
Trancado em meu quarto pintado de preto,
Me olhar no espelho,
Em busca de algo que nunca mais vai voltar.
Outra vez o vazio
E de volta minha melhor amiga.

- Olá, Solidão, por onde você tem andado?


(1995)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O que restou

Desceu as escadas com pressa.
Queria sair para rua, não aguentava mais ficar presa dentro do apartamento.
Tinha passado tempo demais lá.
Quanto mesmo?
Perdeu a noção do tempo que ficou chorando, olhos vidrados no telefone à espera de um sinal, um alô.
Nada.
No início pensou que se tratava de um problema no aparelho, depois de um tragédia. Teria acontecido algo com ele? Só podia ser isso...
Naquela noite, depois dela ter se entregue, tudo estava perfeito. Ele, carinhoso, cobriu-a de beijos e de palavras doces que soavam como promessas de novos encontros.
Passaram-se as horas, os dias, e nada.
Quando ela ligava caia na caixa postal ou não era atendida.
Não entendia o que poderia ter acontecido.
Esperou, ligou para os amigos, novamente nada. Ele tinha desaparecido da face da Terra.
Ou quase.
Descobriu por um conhecido que ele havia ido trabalhar. Pensou em procurá-lo lá, mas o pouco de orgulho que lhe sobrou depois de quarenta e sete chamadas não atendidas e duas dúzias de mensagens não a deixou.
Ele era um canalha.
Custou a acreditar (e ainda, por vezes procurou alguma justificativa para não pensar assim).
Caiu na lábia, na armadilha, de um predador que sugou sua paixão, seu sono e sua vontade de comer por uma simples noite de prazer.
Por que ele não pediu? Teria concedido mesmo que fosse claro que seria assim.
Estava apaixonada, estava entregue, por que precisaria ainda ficar humilhada?
Ele, nas semanas que antecederam o episódio, lhe pareceu um perfeito cavalheiro, um príncipe de contos de fadas. Seus olhos lhe passavam tanta segurança, diria, amor até.
Sabia que combinavam, que tinham tudo para namorar e serem felizes.
Por que, meu Deus, por quê?
Agora já via a porta, apressou o passo, não reparando estar descalça. Não se viu no espelho, não colocou maquiagem. Estava com a mesma roupa de uma semana atrás.
Precisava de luz.
Correu.
Passou pela portaria sem cumprimentar ninguém.
Sol no rosto, visão manchada, avançou em direção a rua movimentada sem perceber os carros.
Morreu sem saber de nada.



(2008)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

1.87.12 - Uma Canção de Amor Timéria

Teu corpo é mar, amor.
É porto firme pra onde ruma a minha nau.
É por do sol, é farol
Que me guia de volta pra casa.
Teu corpo é a ceia
Que mata minha fome
E vinho tinto que aplaca a minha sede.
Teu corpo é tudo
E tudo que eu penso me leva a ti
E se longe de ti o tempo não passa,
Sou saudade,
Estrela que brilha longe, muito fraca...
Vem agora e me busca,
Me leva de volta
E com os braços à minha volta,
Fecha meus olhos num beijo
Depois dois,
Três,
Até eu adormecer...
Pra com meu sonho
Fazer um mundo perfeito
E dar a ti.
E se depois, amor,
Não vier mais nada,
É por que nada
Vai ser maior que nós.


(2003)

Violeta

...E o céu se revela, em parte,
Em dois olhos curiosos, inquietos, envergonhados...
A natureza fala através de ti,
Uma canção,
Quem sabe uma flor...
Ah! Doce inspiração que brota de ti,
Como se mil pássaros te erguessem e te dissessem:
- Amor!
Filha única da perfeição,
Obra-prima de Deus.
Diante da minha visão conturbada,
Embriagada de paixão...
Te amo
Te amo
Te amo...
E amaria mais ainda se soubesse como.
Teu beijo,
Teu mel...
Teus desejos mais secretos,
Vem, me mostra.
A minha vida pela tua
Ainda que por uma bobagem.
A todos os segundos, a toda hora.
Abrindo portas.
Poesia!
Perdido dentro de ti
Sem querer nunca mais sair.
Até o final dos tempos, juntos,
Eu e você!


(1993)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Hoje

Hoje não pensei em ti.
Tão pouco precisei de ar.
Resolvi não respirar, melhor assim...
ficar trancado dentro de mim
já que meu mundo não faz parte do teu.

Hoje não pensei em ti,
fiz greve, fiz birra,
superestimei teus três defeitos.
(mesmo sem lembrar direito quais eram)
Apaguei da minha mente teu sorriso
e me desapaixonei por dois segundos.

Hoje não pensei em ti
e achei minha poesia um lixo.
Sorri pouco, fiquei irritado,
peguei chuva,
briguei no trânsito
e cheguei atrasado onde não podia.

Hoje não pensei em ti,
não fiz a barba
e mal me arrumei.
Passei longe do PC, nem olhei teu telefone
e tentei esquecer da lista de surpresas que te preparei.
(eram 15 ou 16? Já não sei.)

Hoje não pensei em ti
e a quem eu perguntava, diziam:
-Fez bem!
Esqueci do vinho, da pizza...
Mas...
não consegui esquecer do beijo.

E foi aí que percebi:

Não me pertenço.
Não basta querer não pensar em ti,
já não consigo.

Hoje, só pensei em ti.



(2008)

sábado, 26 de abril de 2008

Chuva

A mulher do outro lado da janela
espera a chuva.
Com os dedos no vidro,
chora mágoas passadas
de um passado que não volta mais.
Perdida, com os olhos distantes,
nem notou na calçada
o homem descalço que há dias espera
que sua visão pare de buscar ao longe
o que está ao alcance de sua mão...


(2008)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Agora sei por que gosto de ti

Teus olhos curiosos não descansam
e só prestam atenção no que te instiga,
Teus olhos são lindos,
são de menina.
Dançam de um lado para outro
e adoram sorrir...
E tu sorris inteira,
verdadeira.
Há vida demais em ti.
Contagiante.
E embora tu fujas da paixão
ela te acompanha,
é tua.
Por ti fiz coisas que não deveria,
querendo fazer.
Tu me inspiras à verdade,
à necessidade de dizer o que sinto.
(e gosto do que sinto)
Do encontro perfeito
não faltou o beijo.
Ele espera a hora certa,
paciente.
"tudo a seu tempo"
Bons momentos junto de ti.
Horas que deslizaram feito seda,
que marcaram como tatuagem.
Agora sei por que gosto de ti.


(2008)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Num Minuto

Minha mente vive no subjuntivo
e se permite, a cada minuto,
imaginar uma nova história.
Sonho agora contigo,
desconhecida,
musa instantânea
que tomou meu coração de assalto
durante o café.
Meus olhos capturaram teus movimentos
como uma necessidade futura.
Teus olhos passaram doçura
e curiosidade.
(Seria a mesma que senti por ti?)
Quem é você?
O que te interessa? O que te move?
Como é tua voz?
Será que dos teus lábios
viria o beijo que há tempos espero?
Há um romantismo à espreita
de uma chance de transbordar de dentro de mim...
Que bom que fosse pra ti.
Que bom que fosse tão fácil,
que uma troca de olhares,
um toque involuntário,
virasse paixão.


(2008)

Ouça meu silêncio

Ouça meu silêncio.
Isso.
Atrás de você.
Dois bancos de diferença, atrás de você.
Sentado à esquerda do homem de barba, um banco à frente do cobrador.
Perfeito... você me notou.
Subo há duas semanas uma parada antes da sua.
Duas semanas esperando que você note que, diferente dos outros, eu entendo você.
Que eu entendo suas roupas discretas, seus óculos escuros e sua revolta em estar cercada de gente desconhecida, em partilhar o mesmo ar viciado de um coletivo repleto da plebe trabalhadora.
Percebo o seu nojo ao sentir em suas mãos as moedas do troco, carregadas de sujeira e suor.
É... eu conheço você.
Já decorei seus movimentos, sei de cor quantas batidas faz teu coração no intervalo de uma quadra.
Sei que as sextas-feiras tem sido seu pior dia.
Pior que segundas, que são quase tão ruins quanto as quintas.
Sei que você detesta os guarda-chuvas, mas detesta ainda mais se molhar.
Notei, desde o segundo dia, que não suporta que lhe toquem. Que não tem interesse em conversar com desconhecidos e que a música ambiente não lhe incomoda, mas também não lhe distrai.
Percebo que você não sorri nunca.
Nunca.
E que talvez os óculos encubram rastros de lágrimas.
Ainda não sei seu nome, mas não faz diferença: você é ela.
Durante mais de dez anos te esperei.
Te escolhi entre todos que já persegui, porque há algo de divino em ti.
Meus pecados só podem ser expiados por alguém assim.
Você percebe, mesmo a distância, o frio do aço da faca em meu bolso?
Sente a excitação que eu sinto por saber que faltam só mais alguns minutos até chegar o seu ponto?
E que a falta de luz na entrada da sua rua vai compor o cenário perfeito para a nossa cena?
Será que os segundos de surpresa do que está por vir irão compensar os anos de tédio que se acumularam na sua vida?
Mais um ponto.
Mais um.
Vou acompanhando teus movimentos em direção a porta e me preparo para descer também.
Enquanto espero o ônibus parar, sinto o doce perfume que exala dos teus cabelos.
Embriagado, desço logo atrás de você.
Perfeito, rua deserta.
Faca? Confere.
Aumento o passo.
Você também. Percebeu minha aproximação.
Não recuo, avanço.
Faca, agora em punho, rasgando o ar.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Som seco do corpo caindo no chão.
Rapidamente, busco teus olhos, na esperança de que eles fotografem a minha imagem.
Perfeito, você me notou.
Enquanto eles se apagam digo meu nome, pra que você saiba quem te livrou do pesadelo que é a vida.
Estranho é você demonstrar desespero.
Eu sorrio, na esperança de me fazer entender:
Tudo bem...
Tudo bem.
Alguém precisava fazer.
Tudo bem, entendi.
Não devo parar com você.
Um beijo.
Uma rosa como cartão de visitas.
Um adeus.
Amanhã um novo ônibus, uma outra história, uma outra mulher.



(2008)

A Vida Perto de Ti

Sinto saudades da tua boca,
da tua língua e das palavras que vem dela.
Minha pele pede de volta as marcas dos teus dentes
e meus olhos, o teu sorriso.
Tenho vontade de gargalhar de tudo ao teu lado
e nunca mais falar sério.
A vida dá um tempo quando estou perto de ti.

Sinto saudades da tua boca,
percorrendo meu pescoço, minha orelha,
dizendo baixinho bobagens, sacanagens,
com uma propriedade que é só tua.
Tenho vontade de descansar do teu lado
e nunca mais mentir.
A vida fica fácil quando estou perto de ti.

Sinto saudades da tua boca,
maliciosa, deliciosa,
dizendo que é minha dona
e que agora manda em mim.
Tenho vontade de ficar do teu lado
e nunca mais partir.
A vida se renova quando estou perto de ti.



(2008)

Enigma

Não percebi que ela estava atrás de mim.
Continuei tomando a minha cerveja e olhando o monitor de TV sem som do bar, alheio a toda conversa que rolava no balcão.
Observei o relógio do celular: 23:15h.
Minha noite estava uma merda.
Todos os meus planos traçados antes de encarar a noite chuvosa daquela cidade sem graça tinham um só desfecho: adormecer ao lado de uma bela mulher, (de preferência uma estranha) depois de 50 minutos de gemidos e posições sexuais ainda não experimentadas.
A chuva havia afastado as mulheres dos bares.
Todas, não somente as belas.
As 22:30h beleza deixou de ser um pré-requisito para a continuidade da minha aventura.
As 23h eu já considerava a idéia de que meu maior prazer viria do alívio provocado pelas constantes devoluções da cerveja ingerida nas visitas que fazia ao banheiro.
Foi numa dessas que percebi que ela estava ali.
Tive dificuldade em reconhecê-la. Estava embriagado.
Ela não se mostrou surpresa, também não sorriu.
Tentei (de maneira desequilibrada e patética) cumprimentá-la com uma intimidade que, obviamente, não desfrutávamos mais.
Ao tentar beijar seu rosto, ela se afastou sem esticar sua mão para um cumprimento formal.
Eu disse oi.
Ela respondeu com um olhar frio.
Procurei alguém que a acompanhasse, mas ela estava sozinha.
Perguntei, acendendo um cigarro, o que ela fazia naquela espelunca. Ela, aproximando seus lábios dos meus ouvidos e torturando meus instintos com o seu perfume, disse que buscava uma resposta para a pergunta que havia destruído a sua vida: por quê?
Eu sabia do que ela estava falando.
O porquê em questão resumia toda a sua frustração por ter investido cinco anos de sua vida aturando meu mau-humor, minha inconstância profissional e meus eventuais ciúmes doentios que fizeram com que eu transformasse a vida de um anjo em um inferno.
Eu sabia do que ela estava falando, ela me amava.
Eu buscava naquele mesmo lugar a mesma resposta.
Jamais haveria redenção.
Ela, ao perceber que estava diante de alguém que, por mais que desejasse, por mais que tentasse, jamais se perdoaria, me ofereceu uma carona para casa.
Eu me desculpei mentindo que esperava alguém. Um encontro amoroso.
Seus olhos, mesmo percebendo que eu não dizia a verdade, encheram-se de lágrimas.
Mais uma vez eu a machucara.
Eu era excepcionalmente bom nisso.
Ela passou a mão em meu rosto. Era o seu beijo de despedida.
Foi embora sem a resposta para a sua pergunta.
Ela jamais a teria.
Eu também não.
Jamais saberei por que destruo tudo aquilo que amo.
Virei para o balcão, o garçom com cara de poucos amigos ofereceu cerveja.
Pedi tequila, na falta de algo mais forte.



(2007)

Universos Paralelos

Resolveram que o primeiro encontro aconteceria em um cinema.
Ambos tímidos, conversavam muito através do computador, nunca por telefone.
Pensavam estar de acordo com os tempos modernos, apesar de ambos jé terem passado dos 30.
Ele era engraçado, ou melhor, as coisas que ele escrevia eram engraçadas.
Ela se soltava cada vez mais em seus bate-papos virtuais, já havia falado até em sexo numa ocasião dessas.
O cinema seria no sábado.
Ele passaria à noite em sua casa para pegá-la e após o filme jantariam.
Ambos estavam excitados, não namoravam ninguém há tempos.
Combinavam e tinham tudo para dar certo.
Os dois queriam um namoro sério, finais de semana em casa vendo dvd e tomando vinho, ou assistindo reprises de Lost comendo pizza e decifrando os enigmas da série.
Seriam felizes juntos, tinham certeza.
O sábado chegou.
Ambos tomaram o seu melhor banho, colocaram a melhor roupa e, perfumados, apressaram o relógio.
O tempo cooperou, passou rápido.
Ele tocou o interfone e ela perguntou "Quem é?" já sabendo a resposta. Mesmo assim ele respondeu: "Sou eu".
Ela, arrepiada, desceu os quatro lances de escada fazendo três intervalos para conferir o batom e o penteado. Estavam ok.
Ao abrir a porta viu ele. Estava bonito.
Ele pensou o mesmo.
Ela subiu em sua moto e abraçou-o firme.
Estavam felizes.
Chegaram no cinema cinco minutos antes da sessão.
Compraram pipoca e refrigerante, ele já tinha chicletes para depois.
O beijo certamente aconteceria ali e seria bom.
Antes do filme, vários trailers que permitiam pequenos comentários do tipo "Não podemos perder esse!" ou "Adoro esse diretor!", ou ainda "Você viu o primeiro?".
Ele oferecia pipoca com um sorriso.
Ela devolvia o sorriso estendendo o refrigerante.
Quando o filme iniciou ambos entrelaçaram as mãos suadas e trêmulas.
Foi quando o despertador tocou.
Ele não acreditava que tudo não havia passado de um sonho.
Ela também não.
Ambos passaram o dia pensando um no outro sem se conhecer...


(2007)