Não queria ouvir o que seu coração insistia em dizer.
Disfarçava cada vez que o nome dele insistia em soar entre seus lábios.
Não podia ser verdade, não deveria estar apaixonada.
Não agora, não por ele.
Amigos desde muito tempo, partilhavam da sociedade de um pequeno e próspero negócio, uma cafeteria.
Tinham desde sempre esse sonho, de um lugar aconchegante, com boa música, bons livros e revistas, com atendimento personalizado e, é claro, com um bom café.
Os clientes eram fieis e, vez por outra, vinham acompanhados de outras pessoas que, ao encantarem-se com o lugar, viravam clientes também, ou, como ele gostava de repetir em voz alta, seus mais novos amigos.
Dividiam a administração do local em turnos. Ela pela manhã, uma vez que gostava de acordar cedo, antes do por-do-sol; ele ficava com as tardes, gostava de dormir um pouco mais. As noites eram o momento em que ambos dividiam o local.
Numa noite dessas, depois que todos foram embora e os dois preparavam os mantimentos para o dia seguinte é que ela se deu por conta de como seu amigo era atraente. Não havia reparado antes no brilho dos seus olhos, nem no seu sorriso. Ousou ir mais além e baixou seus olhos para o corpo dele. Em forma, bronzeado. Vestia-se bem, nada muito requintado, mas era vaidoso e cuidava de sua aparência.
Ele levantou os olhos da lista que estava fazendo e divertiu-se com a expressão que ela fazia, mordendo de leve seu lábio inferior. Ele riu. Ela, assustada, desconversou. Ele continuou rindo e perguntou:
- Que foi?
- Foi nada – respondeu ela, mudando de lugar e dando as costas para ele.
- Você estava me olhando?
- Eu, imagina, estava distante, pensando nem sei em quê.
Ele acreditou e voltou a sua tarefa, vez por outra perguntando se esse ou aquele produto servia. Ela respondia com murmúrios, tentando entender aquele sentimento a quem fora apresentada minutos atrás.
Ela estava sozinha há um tempo, seus namoros anteriores dificilmente tinham tido tempo de comemorar um mês. Era exigente, não se permitia ir para a cama só para satisfazer um impulso. Em tempos modernos, poucos homens tinham a paciência de cortejá-la e de deixar as coisas fluírem naturalmente. Queriam-na já. Vez por outra até mesmo ele fazia piadas com a solidão voluntária dela, que era extremamente bonita e inteligente.
- Você nunca vai casar! Não sobrou um homem com coragem de lhe convidar para sair. – Disse ele.
- Mais um motivo para ficar sozinha, detesto covardes – respondeu.
A verdade é que não entendia o que estava sentindo. Queria poder observá-lo mais um pouco e encontrar algum defeito que a fizesse esquecer aquilo, mas não conseguia.
Estavam prestes a sair quando a chuva forte chegou.
A eletricidade foi cortada de imediato.
O telefone veio a seguir.
Celulares também saíram de área.
Olharam pela vidraça, ninguém na rua.
Haviam se distraído com as tarefas e perderam a hora.
Quase vinte e três.
Ele acendeu velas para acalmá-la, sabia que não gostava do escuro. Ela agradeceu.
O vento forte veio a seguir.
Trovões.
Relâmpagos.
Ele sugeriu um café, ela abriu uma garrafa de vinho tinto, precisava de algo mais forte.
Quase não se escutavam, tamanha era a força da tempestade lá fora. Checaram as janelas e aproximaram-se.
Aquela luz o deixava ainda mais bonito.
Ele percebeu que havia algo errado com ela, mas achou que fosse por causa do tempo lá fora. Abraçou-a.
Ela aceitou. Aconchegando-se no seu peito. Sentiu seu cheiro, agradável. Passou seu braços por volta do pescoço dele e tocou seus cabelos.
Ele não a afastou.
Ela deslizou os lábios através do rosto dele até chegar a sua boca.
Beijaram-se.
Intensamente.
As roupas foram sendo tiradas como se suas vidas dependessem disso. Fizeram amor no chão da cafeteria enquanto a tempestade diminuía, como se tivesse existido somente para uni-los.
Voltou a eletricidade tão logo seus corpos exaustos e suados caíram de lado.
Ela procurou rapidamente suas roupas, tomada de uma vergonha imensa.
- Espera – disse ele.
- Não fala nada, por favor – ela respondeu, com os olhos cheios de lágrimas.
O telefone voltou a seguir, tocando junto com as mensagens do celular dele.
Ele atendeu:
- Oi? Tudo bem sim, perdemos a hora... Não vou demorar. Ok... Diz pras crianças que eu levo sim. Beijo.
Era a esposa dele, preocupada.
- Escuta... – ele tentou dizer algo, mas foi brutalmente interrompido por ela.
- Não aconteceu nada, foi estupidez.
- Mas...
- Por favor, não dificulta as coisas para mim... esquece. – Ela saiu rapidamente pela porta, batendo-a atrás de si.
Nunca mais voltaria aquele café, nunca mais veria seu amigo, desapareceria da cidade sem deixar vestígios ainda naquela madrugada.
Não era justo o que fizera com a sua irmã, casada e feliz há dez anos com aquele homem.
Ele, vez por outra, ainda se pega lamentando o que aconteceu entre os dois.
Perdeu sua melhor amiga.
E nunca mais foi feliz ao lado de sua esposa.
(2009)